SÓ A GAROTA

Ai, Ai, Ai, aqui estou eu, novamente nesta cama, somente eu e ela... E este luar cruel, que só a mim ilumina, zomba da garota que queria ser amada - nem lembro bem como seria. Por que as pessoas são tão frias, tão pouco pessoas? E para onde pensam que vão assim tão depressa? Assim me deixam, e fico me sentindo infinitamente sozinha. Queria agora que alguém viesse e batesse aqui fora, e batesse aqui dentro, para entrar de verdade! Pois estou farta de programas ordinários. Embriagar um pouco os sentidos e fingir que a vida é assim, uma sucessão de eventos sem nexo, onde vagamos como folhas ao vento. Ah, quantas vezes eu também tentei beber um pouco, sacudir-me para todos os lados, e depois pensei: "que bobagem! Onde estou"? Eu certamente não posso com isto. E nem comigo mesma! Isto sem falar naqueles que saem para caçar qualquer uma. Destes ao menos estou salva: meu olhar desconcerta todos os insensatos de uma só vez. Estranho paradoxo: sou comunicativa e isolada, aqui perdida no quarto bem assombrado.


E como dói, em cada centímetro, a ausência de todos, e a ausência de um só. Me deixaram assim, muito triste, sem esperança, só na base do "deixa disso". Não posso deixar de se eu mesma. É assim que devo ser, é assim mesmo, apenas me falta a ti... - enorme suspiro - Onde estás? Alô? Onde estás? Faço silêncio para te ouvir... Silêncio... Silêncio... E ouço minhas lágrimas ao cair, sem piedade de mim. Essa dor engrandece meu espírito, mas como judia desta garotinha. Está bem se for algo pelo que precisamos passar, para que nossa alegria seja completa depois, mas tenho muito medo. Não sei se não te fostes antes mesmo de ter chegado. O que andas fazendo, meu amado? Não gostas mais de mim? Onde deposita a tua esperança, e a quem dedica este teu amor que não tem fim? São ainda meus os teus elogios? Se são, diga-me novamente, assopra ao pé do meu ouvido e renova esta tua marca na minha alma que tanto te quer. Só tu sabes na medida certa que eu sou a grande e pequena mulher, pois és aquele que sabe ler os mistérios do meu corpo encantado, nesta arte toda preparado. É, e ele cai aqui desmontado sob os lençóis, torpe, como carta sem endereço. Diga-me que é mentira, que não te mudaste em modernidade. Me lembra de como nós, crianças, brincávamos com barro e serragem, rolávamos no chão, construindo castelos com um punhado de pedrinhas. Não me diga que acha bom agora estar num apartamento branco com carpete!!! Eu pensava que iríamos desenhar o mundo, e não nos submeteríamos a estas armadilhas da construção civil. Pensei que iríamos juntos viver também, e não apenas sobreviver, e que eu ganharia mais do que a minha faxineira. É, salário competitivo! Me deixa um tempão para a arte! Puxa, eu hoje estudei pra caramba! Mas de que me adiantam quatro idiomas se não falas comigo agora? Queria tanto ouvir tua voz, teu riso, e ter estes teus lábios charmosos para me beijar. Vê como estou quietinha, e como a minha barriga precisa de um carinho pequenino teu, da suavidade que somente tuas mãos têm. E tu não me dás, não me encontras, não vens aqui me descobrir nesta casa, neste momento. Mais propaganda minha eu não posso fazer. Ô, coisinha deselegante ficar se exaltando. Somente na minha humildade e na discrição dos meus segredos é que construo este rico tesouro para te dar. É, este mesmo que ignoras. O telefone toca. "Sim"? E nestes mínimos instantes meu coração se enche de esperança. Ou curiosidade? Mas não, é claro que tem que ser o JJ, que não larga do meu pé. Ele é riquinho, mas não chegou a bater o gongo. Depois de algumas respostas quase simpáticas eu o despeço, com a sensação de que poderia ser mais amável. E ele nem sabe que eu continuo triste e só aqui, e que daria muito para que até ele mesmo viesse aqui me abraçar, para eu me sentir amada. Eu e o meu orgulho. Mas não tem jeito. Se dou a mão ele logo vai querer o resto todo, para sua grande felicidade. Mais uma vez cabe a nós mulheres fazer a coisa certa. Vocês homens são tão cafajestes! Cedem a qualquer provocação, de preferência às mais primitivas. Como se não bastasse, acabam achando que isto é normal. Mas nós sabemos que não foi sempre assim, e que nossas almas eram ingênuas e belas, com capricho enfeitadas. De repente desistem de se erguer. Homo Erecto deixa que seu espírito rasteje nos escombros dos seus sonhos. E nós que continuamos sonhando não somos realistas. Quem é realista então, e qual é a realidade? São estes monstrinhos que me passam pela cabeça, ou este quarto árido assim como está, imóvel, inerte... Tão parado que chega a me incomodar. Não há como permanecer aqui. Levanto-me e ando cambaleando para qualquer lugar. Toco delicadamente a parede, e nela apoio meu rosto e as palmas de minhas mãos. "Ó, parede, quê me dizeis? Qual a companhia e o conselho que me dais"? Ela quase responde com o meu bocejo. E já que eu, cansada, não tenho coragem de fingir que estou bem, tomo um pequeno travesseiro e vou deitar no chão da minha sala, sobre o tapete que tu querias que eu tivesse. E assim eu adormeço, sentindo a gravidade desta posição, para acordar com o sol de um novo dia.

Marcelo Johann, 31/11, 06/12, 15/12 e 19/12/2000



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   Atualizada em: 11/03/2003