A Realidade É Provável

A garota trabalha durante o dia como quase todas as pessoas. Mas ela observa que as atividades são repetitivas, que algumas não produzem nada, que outras produzem, mas não se sabe bem o quê. Então, ela não pode terminar o dia sem escrever algo que, se fosse ser compreendida, adoraria dizer para alguém.
- Tudo bem? Que bom que te encontrei! Eu precisava conversar e te dizer algumas coisas. Sabe, tu passas o teu dia inteiro envolvido com diversas atividades, todos os teus dias. Já consideraste o que elas representam para ti? Já pensaste sobre o que ocupa teus dias, teu corpo, tua mente, coração? O que acontece quando andas de carro, naqueles vinte minutos que se passam todo dia, contigo, com tanta gente? Imagina que estás olhando a cidade do alto. Às seis horas, todos estão saindo de seus trabalhos, retornando para casa, indo novamente no dia seguinte, indo e voltando. E no trabalho, e no banho, e limpando a casa, e alimentando-se... Parece que se faz uma coisa em função da outra... E a gente tem uma necessidade danada de fazer algo de que realmente se gosta, sair, ficar, beber, dormir, o que em grande parte me parece só uma questão de equilibrar algumas reações químicas, encher de nutrientes o que está vazio, extravasar as tensões que se acumularam... E tu te sentes realizado ao fazer isto? Por estas funções em si? É, dizem que a vida é assim, que dores e prazeres passam pelo nosso corpo e marcam a nossa alma, e que não há nada que se possa fazer a não ser transpassá-la. Bobagem! E tem gente que crê no contrário, que todo o mundo, que todo o futuro está em nossas mãos. Que podemos transformá-lo e fazer dele o que quisermos. Que podemos viver do modo como sonhamos, sendo exatamente aquilo que gostaríamos de ser. Mas que enorme mentira! Não que esses pensamentos, que escolhi por serem extremos, sejam mal intencionados, mas simplesmente não são verdadeiros. A vida não é uma sucessão de eventos banais. Ela tem sentido. Se ainda não tem, se não o percebes, ao menos sabes que ela pede sentido, que toma sentido quando menos esperas, que alguém lhe o confere. E sabes também que não podes ser tudo aquilo que queres, nem tu, nem todos os outros homens. As pessoas não querem ser infelizes, odiadas, odiosas, não querem ser criminosas, não querem morrer. Mas morreremos todos. Nós queremos o perfume da rosa, mas não seus espinhos, queremos a dama e não a companhia, queremos o sol e não a seca, a água e não a chuva, a bondade e não o arrependimento, queremos o milagre mas não a oração. Nós queremos exatamente só aquilo que não temos, e somos frustrados incorrigíveis em nossas próprias mãos. Este é o destino miserável a que estamos presos, e por mais que alguém diga que a nossa ciência e democracia nos libertarão, eu continuarei gritando que é uma escancarada mentira, enquanto for mentira. Sim, pois basta que tu venhas e me apresente o homem bom, a sociedade justa, a gente feliz, para que eu creia no bem que vejo e seja a primeira a defender a novidade. Mas enquanto isso não acontece será sempre ficção, utopia, louca fantasia da nossa cabecinha pretensiosa. Por que a vida só se faz com a realidade, e por enquanto ela é teu banho, teu almoço, teu passeio de carro, teu cano furado, e tua casa com aranhas e baratas, essas coisas que por enquanto são somente meios de chegar a algum fim, antes que o fim chegue. Então, se tiveres uma boa explicação para nosso futuro como seres humanos, bichos evoluídos num eco-planeta sustentável, me faça ele acontecer, me faça ninguém matar nem morrer, e não esqueças de mudar as leis da natureza, na qual de repente apareceste de surpresa. Isso não ocorrerá. Pois se eu te provoco tanto é porque considero que o sentido que a vida tem não está no que dela vemos, ou nesses nossos meios supostamente prováveis. Só há um bem e uma beleza que me podem explicar a existência e a razão de ser de todas as coisas, dos pingos de chuva e das pedras que rolam das montanhas. Esse sentido é o desejo do bem, a sua contemplação, a consciência que em nós é criada e criadora, o prazer de te ver e saber que és como eu sou, embora eu nunca vá estar aí dentro da tua cabeça, prazer de te ver sorrir e de chorar. É saber que agora que eu existo não se pode mais imaginar o mundo sem mim, pois ele não existiria. É, eu vim para ficar, e tenho o incrível poder de trazer mais alguém para este mundo, de criar alguém que nunca existiu, de fazer com que nasça um outro ser original para ter a mesma consciência que tenho, e para ter o prazer de vê-lo. É, acho que eu não merecia tanto, mas não fui eu quem fez com que fosse assim. Não sei como aconteceu. Estão lá os cientistas tentando explicar. Mas independentemente disso eu acho uma maravilha ter esse corpo, e ver que ele me serve tão bem. Caminho por aí, neste mesmo mundo cruel, o mundo onde acontece o bem e o mal, onde seu fruto aparece, onde você os conhece, e nele encontro pessoas que também são como eu, que não querem o fim banal, a obra meio acabada, não querem ver o choro da injustiça ou a dor do sofrimento. Não, nós não queremos isso, e nos é inaceitável a ofensa sob qualquer forma, a malícia ante qualquer prêmio. Minha boca estará sempre aberta para denunciar o que é feito com intenções pervertidas, trocadas, as que substituem o bem pelo sarcástico, intenções de rir com a angústia, de se consumir com o fogo que destrói a casa do inocente, de ver em si mesmo a razão das ações, de achar na força a mola motora, o critério que julgará o que permanece no final. Isso tudo é passageiro, como chama que arde e desaparece, como efeito ilusório. Fascinante trajetória rumo a uma obra terminada. Disso tudo que é efêmero não haverá mais nada. Não estou sendo nada original. Me faz lembrar de algumas frases que são bem conhecidas, mas deixadas de lado. "Ele pôs todas as coisas aos Seus pés". "Céus e terra passarão, mas minha palavra não passará". É, eu já sabia que isso tinha tudo a ver com Deus, mesmo quando apenas observava as coisas que vemos no nosso dia a dia. Deus não é teoria. Mas é conceito: tu podes vê-lo e não saber que é dEle que se escreve. Podes conhecê-lo sem saber que passou em tua frente. Ou não. Podes fechar teus olhos para o que é evidente e achar que a ida de carro tem somente o sentido de que gastando energia em combustão as moléculas mudam de posição. Está! E daí? Ponha elas numa boa posição e me diga por que ela é boa então. Lhes dê sentido sem Deus, sem amor, sem contemplação. É, eu creio mesmo que se não buscas sentido no eterno, no Todo-poderoso, no Todo-justo, não encontrarás em lugar nenhum, pois nunca sairemos sozinhos das nossas guerras, das nossas brigas, dos nossos ciúmes, do nosso planeta no qual suamos para ganhar o alimento. Nós aparecemos aqui sem ser por nossa vontade, e não sairemos apenas por ela. Esta é a nossa condição miserável. Sorte nossa! Pois nosso Deus teve misericórdia da nossa miséria, e fez o que nenhum de nós é capaz de conseguir: foi tudo de bom! Veio ver aqui como era, como era ser igual a nós, e estando sob as mesmas condições, mostrou que somente estando com Ele, entregando (novamente) nossa vida a Ele, podemos transformar a nossa existência, e ainda presos nessa mesma condição, receber uma outra vida que é a esta muito superior, vida que não morre, que não acaba, a vida que é sempre viva. Você a conhece? A concebe? Eu sim! A desejo, e serei plena. É coisa de realidade. Lembra como eu falei mal da fantasia? Sim, devemos deixar as idéias fantasiosas de lado para compreendermos como é a realidade inegável em que imersos estamos. E a realidade é esta: existem coisas e meta coisas. Existem moléculas e sentido nelas representado. Você pode fazer qualquer coisa com as moléculas, e, por favor, evite chamar isso de vida: são apenas reações químicas. Vida, pra mim, é o sentido existencial que nelas está preso. É o bem e o belo que não podes mudar. É pela vida que o "seu" João é feliz com uma perna a menos enquanto a miss estressada vive momentos de desespero por causa de três quilogramas. Por isso Deus é real, seu amor, sua justiça, sua benção. Porque ele não é físico nem químico, porque com a mesma matéria ele se manifesta e te mostra o sentido - ou não, se não o queres. Os cientistas não poderão jamais prová-lo, se for com o controle que detêm sobre a matéria, pois não têm poder sobre Ele. Mas tu podes entrar em contato com Deus a qualquer instante, pois tua natureza espiritual semelhante assim te permite. Faça isso! Fale com Ele agora. Agradece, como eu, por viveres, por ter esses desejos enormes, por amar, e lhe peça o que quiseres, pois a Ele tudo é submisso. Pois é impossível que não o encontres. Eu tenho absoluta certeza de que Ele te mostrará qualquer coisa que quiseres a respeito da realidade, do mundo que conheces e do que não conheces. Pois é desejo dEle reatar, refazer as pazes contigo. Aliás, já feitas, Ele só espera que as aproveite. Vamos rezar, amigo: "Meu amado Pai, de quem eu vim e em quem encontro a razão da minha vida, me ouça, por favor. Eu quero te agradecer pela vida que me deste, com todas as suas dádivas e desafios. Quero te pedir que reconsideres aquelas minhas atitudes que não estiveram em conformidade com as tuas sábias leis, e pelas quais tenho feito sofrer mais meus irmãos, ou não os tenho aliviado de seu sofrimento. Perdoa-me, pois, cega por minha insensatez, não vi que isso nos era tão mal. Te peço que me aceites e instruas novamente, e que, participando mais lucidamente da vida que existe em Ti, minhas idéias sejam esclarecidas, e se reflitam em ações, também pela tua força e intenção, que transformem a realidade do nosso mundo em algo mais próximo da perfeição que desejastes para nós. Que o Teu Santo Espírito nos ilumine e inspire boas obras, sem que esqueçamos de sempre a Ti atribuir essa grande manifestação de amor, pela nossa criação e pela nossa restauração. Bendirei para sempre o Teu nome enquanto nesta terra aspiro a eterna  contemplação das Tuas maravilhas". Desejemos que seja feito sempre assim, concordas? Quero te agradecer por me teres dado atenção, e dizer que contas com uma amiga, eu, a mulher fraca e forte, para conversar e refletir sobre os mistérios da nossa vida. Sabe, acho que estou com fome. Quer jantar comigo?

da Lenda,
por Marcelo Johann
em 03/06/2003


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   Atualizada em: 11/03/2003