Poesias (de minha autoria)



Introdução

Poesias

    Eu tenho Calos
    Agridoce
    Primata Vira-Latas
    Propriedade Privada
    Arroio Dilúvio - Número II
    Aprendizado
    O Poema do Informata Apaixonado
    Dispositivo
    Nada a Declarar
    As Quatro Estações



Introdução

Eu nunca tive a pretensão de ser poeta, simplesmente aconteceu. Um belo dia eu estava escrevendo poesias. Ao menos era esta a minha teoria, até que a minha mãe me lembrou que eu já escrevia algumas rimas na época de guri. Recentemente eu li alguns livros sobre aquisição da linguagem, e estes livros diziam que existe uma época da vida das crianças em que elas começam a descobrir a linguagem como abstração e então começam a usar esta linguagem em brincadeiras onde a rima desempenha um papel fundamental. Este processo se acelera quando a criança começa a ser alfabetizada. Interessante. É este uso da rima em brincadeiras maliciosas que se faz presente no teatro medieval italiano da Commedia dell'arte, e que pode ser encontrado também nas peças de Molière. Refletindo sobre isto, lembrei daquelas brincadeiras do tipo "-Meu amigo fulano, te apresento beltrano. - Daonde provém? -... - Do que se alimenta? -..." que sempre terminavam em uma rima chula. Lembrei da época em que escrevi o meu primeiro poema, segundo a lembrança da minha mãe. O que me rendeu na época algumas palmadas. Primeira série do primário, ano: 1975. Há que se comprender o contexto. Uma criança sendo alfabetizada não conhece muitas palavras. E ainda por cima a alfabetização começa com o A-É-I-Ó-U, o que já sugere uma rima infeliz. Hoje minha mãe ri do episódio, na época eu fiquei sem saber se o problema foi a rima ou o fato de eu ter escrito o poema direto na parede do quarto. Na época, achei melhor não investigar muito. Quase que o mundo perde um poeta. Depois refleti sobre o fato de eu nunca ter tido a pretensão de ser poeta, e lembrei do meu segundo poema, que infelizmente se perdeu no tempo. Era bem pretensioso.  Eu estava na segunda série do primário (Ano: 1976) e fiz um soneto dodecassílado (surpreso? meu pai tinha muitos livros e eu lia escondido) sobre o coelhinho da páscoa. Lembro que a professora elogiou muito, disse que um dia eu ainda seria um escritor, tal e coisa... Meu pensamento enquanto ela falava era: "-como é que ela gostou desta porcaria, este negócio só tem rimas pobres com diminutivos...". Definitivamente meu senso de autocrítica era rigoroso demais aos sete anos de idade. Eu era pretensioso. Depois passei anos sem escrever poesias. Só voltei a escrever porque no segundo grau (Ano: 1985), agora adolescente, comecei a ser pressionado pelo então presidente do Grêmio Estudantil do colégio para escrever no Jornalzinho do Colégio. Como não estava a fim de publicar nada, escrevi algo impublicável, e para que as pessoas perdessem tempo lendo escrevi algo que começava muito bem e terminava muito mal. Não foi publicado, o diretor do colégio censurou quando o presidente do grêmio apresentou a poesia (felizmente). O mais engraçado é que o então presidente do Grêmio estudantil hoje é meu colega de trabalho no Instituto de Informática. Depois disso ainda escrevi uma letra de música chula a pedido de um colega meu de segundo grau, que depois se tornou músico. Nesta época eu também ganhei um concurso de redações do colégio (Ano: 1984), pois escrevi algo dentro da linha de pensamento das pessoas que eu achava que iriam julgar o concurso. Funcionou. Depois passei longos anos sem escrever. Minha redação no vestibular (Ano: 1986) foi nota 3 sobre 10 (ainda assim passei). Não foi um bom desempenho. Voltei a escrever quando conheci minha esposa Simone. A poesia se chama Eu Tenho Calos e fala por si só (Ano:1993). Depois disso escrevi várias outras poesias, todas razoavelmente bem comportadas, até que um dia foi feita uma reclamação de um aluno de que eu dizia palavras chulas em sala de aula (Ano: 2001). Então eu ressucitei também a minha antiga capacidade de escrever poemas de baixo calão, coisa que faço mais pelo humor associado a jogos de palavras como é usado pela comedia dell'arte, e por autores como Moliére e poetas como e.e.cummings, do que por qualquer outra razão. O próprio cummings declara a sua opção pelo humor sobre tudo, ou a idéia de que ele prefere perder o amigo a perder a piada no seguinte texto:

"Minha teoria da técnica, se tenho alguma, está muito longe de ser original; nem é uma teoria complicada. Posso exprimi-la em quinze palavras citando A Eterna Pergunta e Imortal Resposta do teatro burlesco, i. é: "Você bateria em uma pessoa com uma criança? -Não, eu lhe bateria com um porrete". Como o comediante burlesco, sou extraordinariamente apegado àquela precisão que cria o movimento."
                                                                                            e.e.cummings

De um modo geral, minha poesia passa por esta tentativa de humor, pelo ritmo e pela malícia que tem as crianças quando começam a descobrir a linguagem enquanto abstração. Coisa de moleque. Um bom exemplo desta molecagem é a poesia Agridoce, que se equibra de modo precário entre e inocência e a malícia infantis. Esta perplexidade infantil, de quem ainda está se acostumando ao mundo tal qual ele é pode também pode ser encontrada nas poesias
listadas a seguir.
Primata Vira-Latas, por ver pessoas passando fome em nosso país tão rico (sim, o país é rico, a riqueza é mal distribuída).
Propriedade Privada, por ver que em um país com tanta terra existe gente que não tem onde morar.
Arroio dilúvio - Número II, por ver o descaso que fazemos com a poluição que nós mesmos produzimos e que nos afeta diretamente no dia-a-dia.
Aprendizado, pelo simples descobrimento e redescobrimento da paixão.

Existem também algumas poesias que são diretamente influenciadas pela minha profissão, e que para serem apreciadas na sua plenitude requerem um certo conhecimento de algoritmos e teoria da complexidade, como é o caso d'O Poema do Informata Apaixonado. Já o poema Dispositivo mistura a linguagem da informática com uma certa malícia.
Em 2003 eu submeti três poesias de minha autoria para o concurso Poemas no Ônibus da secretaria de cultura da cidade de Porto Alegre. Os três poemas eram: Primata Vira-Latas, Nada a Declarar e As Quatro Estações. Destes três, o poema As Quatro Estações foi selecionado.
 

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Eu Tenho Calos!

Eu tenho calos no cérebro,
lá naqueles neurônios que só ficam pensando em te ter.
E naquele nervo
que sente o teu cheiro
e vê o teu riso faceiro
quando me vê.
Eu tenho calos no cérebro de tanto pensar em você!

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Agridoce

Fique registrado:
Eu preferia um doce
Mas você me deu um salgado
Seja como for,
Não se deve reclamar
Daquilo que é dado
Com tanto amor
Gostaria que não fosse
Mas foi o que aconteceu
Eu queria comer aquele doce
Que ainda não é meu
Pois o doce que eu tanto desejo
Você ainda não me deu

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Primata Vira-Latas

Em meio a tanta gente-boa,
  gente-fina,
em meio a esta nata,
o que faço eu?
Eu,
que não tenho nenhuma raça,
que não pertenço a nenhuma casta?

Eu,
um reles primata vira-latas,
o que faço eu,
cachorro sem pedigree,
o que faço eu aqui?
Eu viro latas
a cata
do pão que ainda não comi!

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Propriedade Privada

Por que a terra tem dono,
Mas o céu não?

É porque no ar
Só se pode andar de avião.

Por que a terra tem dono,
Mas o mar não?
É porque na água
Não se pode fincar marcos,
Na água só se anda em barcos.
Se a terra tem dono,
E o céu e o mar não têm,
É porque alguém disse que era o dono
E os outros disseram amém.

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Arroio Dilúvio - Número II

Arroio dilúvio,
Riacho de correnteza lerda
Trancado de tanta merda
É pena ver o rio que
A gente gosta
Atrasado de tanta bosta

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Aprendizado

Eu já estudei fisica quântica
E outras coisas que parecem
Não ter nexo
Mas uma coisa
ainda me deixa perplexo:
O sexo!!
Já estudei o Big-Bang
E as origens do universo
Mas tem uma explosão
Que ainda me deixa pasmo:
O orgasmo!!!
Já entendi coisas
Que não esperava saber
Mas tem outras
Para as quais não tenho explicação:
A paixão!!!!

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O Poema do Informata Apaixonado

Não sei se VOCE não sabe,
ou apenas finge,
mas VOCE é a esfinge
que eu tento decifrar:
abstrata como o ar
De todos os PROBLEMAS DE DECISAO
que habitam meu cérebro e meu coração
VOCE é meu problema predileto,
um problema NP-completo,
que eu abordo com heurística
para encontrar uma solução,
mas como VOCE é não-determinística,
às vezes te resolvo, outras não.

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Dispositivo

Fiquei muito surpreso quando te vi
Devo confessar que me surpreendi
É isto mesmo, fiquei surpreso
Quando vi você
Com aquele dispositivo
que se conecta na USB
Foi um momento inspirador
Tive um frêmito, quase um tremor
Ao te ver radiante, fora de si
Com aquele dispositivo
Que não era PCI
Cheguei a vislumbrar coisas
Que antes não poderia supor
Ao te ver com aquele dispositivo
Que parece um vibrador

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Nada a declarar

Quando tua palavra fere
Ferina, feroz
eu calo a minha voz
e meu silêncio me protege deste algoz
Se tua palavra é uma arma
meu silêncio é um escudo
nada digo, fico mudo
ainda assim, digo tudo

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As quatro estações

Ainda que a vida viesse
em ciclos previsíveis, idiotas
como uma música techno
martelando sempre as mesmas notas
Ainda que as quatro estações nos tragam
primeiro melancias, depois bergamotas
primeiro o amor, depois lorotas
Ainda assim eu resisto
e o amor que te tenho
trago guardado em meu peito
feito compota
que em pleno janeiro
conserva o precioso cheiro
da bergamota

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