Uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Informática da UFRGS propõe uma nova abordagem para tornar videogames mais acessíveis a pessoas com deficiência na percepção de cores (DPC), condição popularmente conhecida como daltonismo. O artigo Non-Invasive Game Color Contrast Enhancement with Natural Color Preservation for Dichromats, de autoria de Júlia P. Violato, Tiago E. Binz, Gabriel Tadiello e Manuel M. Oliveira Neto, recebeu o Best Paper Award na Main Track do SIBGRAPI 2026 – Conference on Graphics, Patterns and Images, realizado de 29 de setembro a 2 de outubro, em Goiânia (GO). O SIBGRAPI é o principal evento científico da América Latina nas áreas de computação gráfica, processamento de imagens, visão computacional e reconhecimento de padrões.
Legenda: Certificado de “Best Paper Award” recebido no SIBGRAPI 2026
Problemática
A DPC afeta mais de 340 milhões de pessoas em todo o mundo e pode dificultar a realização de tarefas que dependem da distinção entre cores. Nos videogames, essa limitação pode comprometer a identificação de elementos importantes da cena, como alvos, objetos e personagens, além de dificultar a diferenciação entre aliados e adversários. Como consequência, jogadores com DPC podem precisar de mais tempo para interpretar informações visuais e tomar decisões, gerando desvantagens durante as partidas.
Para enfrentar esse problema, os pesquisadores desenvolveram uma solução não invasiva de realce de contraste de cores, capaz de ser aplicada diretamente aos jogos, sem exigir alterações em seu código-fonte. A técnica pode operar em tempo real e de maneira consistente, sendo aplicável a diferentes jogos eletrônicos independentemente de seu conteúdo visual.
A abordagem estende uma técnica proposta por Machado e Oliveira (2010), permitindo sua aplicação de forma não invasiva e incorporando um mecanismo que possibilita ao usuário controlar o equilíbrio entre o realce do contraste e a preservação da naturalidade das cores. Dessa forma, a solução busca destacar diferenças relevantes para pessoas com DPC sem provocar alterações desnecessárias nas demais cores da imagem.
A implementação desenvolvida pelos pesquisadores atualmente oferece suporte a jogos executados no Windows que utilizam as APIs gráficas OpenGL, Vulkan e DirectX. Por não depender especificamente do conteúdo apresentado, a abordagem também pode ser utilizada em outros tipos de mídia visual, como filmes e desenhos animados, desde que o aplicativo utilizado para exibição empregue uma API gráfica que possa ser interceptada.
A eficácia da técnica foi demonstrada em 18 jogos comerciais, abrangendo diferentes cenários e características visuais. Além da avaliação técnica, os pesquisadores realizaram um estudo com 17 participantes com deficiência na percepção de cores, permitindo analisar os benefícios da abordagem em situações de uso.
Os resultados indicaram que o realce de contraste proporcionado pela técnica pode melhorar significativamente o desempenho de jogadores com DPC, evidenciando o potencial da computação gráfica para reduzir barreiras de acessibilidade em ambientes digitais e de entretenimento.
O reconhecimento no SIBGRAPI 2026 destaca a relevância da pesquisa tanto para a área de computação gráfica quanto para o desenvolvimento de tecnologias voltadas à acessibilidade. A proposta combina técnicas de processamento e representação de cores com uma estratégia de aplicação que não depende de modificações nos jogos, aproximando resultados de pesquisa de uma utilização mais ampla por usuários com diferentes necessidades de percepção visual.