O Processamento de Linguagem Natural (PLN) é uma área dedicada ao desenvolvimento de métodos computacionais capazes de processar, representar, compreender e gerar linguagem humana. Suas técnicas são aplicadas a problemas como tradução automática, classificação e sumarização de textos, recuperação de informações, sistemas de perguntas e respostas, reconhecimento de entidades e, mais recentemente, à construção de grandes modelos de linguagem (LLMs).
Sistemas de PLN precisam lidar com características próprias da linguagem humana, como ambiguidade, dependência de contexto, variações linguísticas, conhecimento implícito e diferenças entre domínios e idiomas. Além disso, questões como vieses presentes nos dados de treinamento, avaliação da qualidade das respostas e eficiência computacional passaram a ocupar espaço central na pesquisa da área.
É nesse contexto que a Association for Computational Linguistics (ACL) exerce papel relevante na comunidade científica internacional. O encontro anual da ACL, principal evento da associação, reúne pesquisas que apresentam novos algoritmos, modelos, conjuntos de dados, métodos de avaliação e análises sobre diferentes aspectos da linguagem computacional. O processo de revisão por pares é, portanto, uma etapa fundamental para avaliar a consistência metodológica, a contribuição científica e a relevância dos resultados apresentados.
Na 64ª edição do encontro anual da ACL, realizada entre os dias 2 a 7 de julho em San Diego, Califórnia (EUA), a Profa. Viviane Pereira Moreira, vice-diretora do Instituto de Informática da UFRGS, atuou como Co-Chairs do Comitê de programação do evento, considerado a principal conferência científica da área no mundo.
A participação da professora e vice-diretora na organização de um evento desse porte é um reconhecimento importante para a instituição: ao lado de pesquisadores de referência internacional como Maria Liakata (Queen Mary University of London), Jiajun Zhang (Chinese Academy of Sciences) e David Jurgens (University of Michigan), Viviane Moreira coordenou, ao longo de nove meses, todo o processo de avaliação científica da conferência. Foi a primeira vez na história da ACL que uma pesquisadora vinculada a uma universidade brasileira ocupou essa posição, considerada uma das de maior responsabilidade científica do evento.
PLN combina conhecimentos de Linguística, Ciência da Computação, Estatística e Aprendizado de Máquina para desenvolver métodos capazes de analisar e produzir linguagem humana. Isso envolve desde problemas relativamente estruturados, como identificação de palavras, categorias gramaticais e entidades em um texto, até tarefas mais complexas, como determinar relações semânticas, interpretar o contexto de uma frase, responder perguntas, resumir documentos ou gerar textos.
Do ponto de vista computacional, uma das dificuldades fundamentais está em transformar a linguagem, que é simbólica, contextual e altamente variável, em representações que possam ser processadas por algoritmos. Abordagens contemporâneas utilizam representações vetoriais, nas quais palavras, trechos ou documentos são associados a pontos em espaços matemáticos de alta dimensão. Essas representações permitem que modelos aprendam relações estatísticas e semânticas a partir de grandes volumes de dados.
Uma mudança importante na área ocorreu com a adoção das arquiteturas Transformer, que utilizam mecanismos de atenção para determinar quais partes de uma sequência são mais relevantes para a representação de cada elemento. Diferentemente de abordagens que processavam uma sequência predominantemente de forma recorrente, os Transformers permitem modelar relações entre diferentes posições do texto de maneira mais eficiente e tornaram possível o treinamento de modelos com grande capacidade. A arquitetura passou a desempenhar papel central no desenvolvimento dos atuais modelos de linguagem.
Os modelos de linguagem aprendem padrões de uso da língua a partir de grandes coleções de textos. Durante o treinamento, o modelo ajusta seus parâmetros para representar regularidades estatísticas da linguagem e, em diferentes arquiteturas e objetivos de treinamento, pode aprender relações sintáticas, semânticas e contextuais. Essa capacidade pode posteriormente ser utilizada em tarefas específicas, seja por meio de treinamento adicional, seja pela adaptação do modelo a diferentes instruções e contextos.
Esse processo também explica por que o desempenho de um sistema de PLN não pode ser analisado apenas pela capacidade de produzir textos aparentemente coerentes. A pesquisa contemporânea investiga questões como generalização, factualidade, robustez, interpretabilidade, vieses, eficiência computacional e comportamento em diferentes idiomas e domínios. Um modelo pode apresentar alto desempenho em um conjunto de testes e, ainda assim, apresentar limitações quando submetido a situações diferentes das observadas durante seu treinamento.
Outro desafio é a avaliação científica dos modelos. Dependendo do problema, pesquisadores podem utilizar métricas automáticas, avaliações humanas, testes de generalização, análises de erros e conjuntos de dados especificamente construídos para medir determinadas capacidades. Em tarefas de geração de linguagem, por exemplo, a avaliação é particularmente complexa porque diferentes respostas podem ser igualmente adequadas, tornando insuficiente a comparação baseada em uma única métrica.
A dimensão multilíngue também é um problema científico importante. Modelos treinados predominantemente com dados de idiomas com maior disponibilidade de recursos podem apresentar desempenho significativamente diferente em línguas com menos dados digitais. A pesquisa em PLN busca, portanto, desenvolver métodos capazes de lidar com diversidade linguística, transferência entre idiomas e situações de baixa disponibilidade de dados. A programação da ACL 2026 inclui explicitamente pesquisas sobre multilinguismo, diversidade linguística e métodos para cenários de poucos recursos.
Além disso, os sistemas atuais estão cada vez mais integrados a outras modalidades. Pesquisas de PLN multimodal investigam a relação entre linguagem e informações provenientes de imagens, áudio, vídeo e outros tipos de dados. Da mesma forma, modelos de linguagem vêm sendo estudados em sistemas de recuperação de informação, agentes computacionais, robótica e aplicações científicas e biomédicas. Esses avanços ampliam o problema de representar apenas texto para o desafio de relacionar linguagem a informações sobre o mundo.
Nesse cenário, a ACL reúne uma comunidade que trabalha não apenas no desenvolvimento de novos modelos, mas também em questões fundamentais sobre como representar a linguagem, como avaliar sistemas de IA e quais limitações podem ser identificadas nos métodos existentes.
Nesse contexto, a Profa. Viviane Moreira esteve na coordenação do processo de avaliação da conferência, que recebeu cerca de 12 mil artigos submetidos por pesquisadores de todo o mundo, estabelecendo um novo recorde de participação. A coordenação foi responsável por supervisionar milhares de revisores e editores de área e organizar toda a programação técnica do evento.
“Foi uma experiência intensa, com inúmeros desafios, incluindo coordenar o processo de avaliação de submissões, decidir quais artigos aceitar, montar o programa do evento e lidar com as incontáveis dificuldades que surgem em um processo que envolve dezenas de milhares de pessoas”, relata Viviane.
PLN está no centro de algumas das transformações tecnológicas mais significativas da atualidade. Os grandes modelos de linguagem que sustentam assistentes conversacionais, ferramentas de tradução automática e sistemas de recuperação de informações têm suas bases científicas justamente nas pesquisas discutidas e validadas em conferências como a ACL. Ocupar uma posição central na organização desse encontro significa, portanto, estar na linha de frente das decisões que moldam os rumos científicos de uma área que hoje influencia diretamente a forma como pessoas e empresas se relacionam com a tecnologia.
Nesse contexto, a atuação da Profa. Viviane Moreira como Chair do Cômite de Programa da ACL 2026 reforça a presença do INF em posições de liderança nas principais instâncias científicas internacionais de PLN. Para o Instituto, o feito representa não apenas reconhecimento pessoal à trajetória da pesquisadora, mas também maior visibilidade internacional para os grupos de pesquisa em PLN e IA da instituição, com potencial de fortalecer parcerias, atrair estudantes de pós-graduação e ampliar a projeção das pesquisas desenvolvidas na instituição.