A rápida evolução da inteligência artificial vem remodelando a forma como produzimos conhecimento, ensinamos, pesquisamos e trabalhamos. Mais do que acompanhar essa transformação, no Instituto de Informática da UFRGS temos buscado assumir um papel ativo na construção de espaços de debate, formação e desenvolvimento de competências que permitam compreender criticamente e utilizar estrategicamente essas tecnologias.
Nos últimos meses, intensificamos uma série de iniciativas voltadas à inteligência artificial, reunindo docentes, pesquisadores, estudantes, técnicos-administrativos e representantes do setor produtivo em diferentes atividades. A proposta do instituto vai além de ser mero espectador. Buscamos estar na vanguarda dessas transformações, promovendo discussões qualificadas sobre os impactos da IA na sociedade e, ao mesmo tempo, explorando seu potencial como ferramenta de aceleração da pesquisa, do ensino, da inovação e das atividades administrativas.
As ações mais recentes que realizamos no INF em inteligência artificial são resultado de um processo que vem sendo construído de forma colaborativa ao longo dos últimos meses. Mais do que discutir tendências tecnológicas, o Instituto tem buscado criar espaços para que docentes, pesquisadores, estudantes e profissionais experimentem, na prática, novas formas de integrar a IA às suas atividades diárias .
Um dos marcos desse movimento ocorreu em janeiro de 2026, quando o professor André Grahl ministrou um curso experimental sobre Vibe Research para um grupo de sete docentes do Instituto. A proposta foi apresentar abordagens emergentes para o uso da inteligência artificial na pesquisa científica e estimular a aplicação imediata desses recursos em desafios reais enfrentados pelos participantes.
A experiência deu origem a uma oficina prática realizada ao longo de dois dias, durante a qual cada professor trouxe um problema de pesquisa ou trabalho para ser explorado com apoio de ferramentas de IA. O formato privilegiou a troca de experiências, a experimentação e a construção coletiva de soluções.
O interesse da comunidade levou à realização de uma nova edição da oficina no final de fevereiro, desta vez reunindo 21 professores. O encontro contou ainda com apresentações do professor Eduardo Gastal e da estudante de graduação Luisa Righi Bolzan, que compartilharam os resultados obtidos a partir das experiências desenvolvidas na primeira edição.
O compartilhamento de conhecimento sobre IA alcançou diferentes públicos dentro e fora do Instituto também. No início de março, o professor André Grahl apresentou aos ingressantes do Programa de Pós-Graduação em Computação (PPGC) possibilidades de utilização da inteligência artificial para acelerar etapas da pesquisa científica, desde a revisão bibliográfica até a formulação e validação de hipóteses.
Poucas semanas depois, em abril, a discussão foi ampliada para docentes das áreas de Biologia, Bioquímica, Física e Química, em uma palestra voltada ao potencial da IA como ferramenta de apoio à produção científica em diferentes campos do conhecimento.
A colaboração interdisciplinar se fortaleceu ainda mais em abril, quando os professores Luigi Carro e Eduardo Gastal conduziram uma oficina junto ao Instituto de Biociências. A atividade foi dedicada a desafios específicos da pesquisa em Biologia, abordando desde estratégias para aprimoramento de prompts até a utilização de modelos executados localmente, capazes de reduzir custos computacionais e ampliar a autonomia dos grupos de pesquisa.
Essas iniciativas evidenciam uma característica marcante da atuação do INF frente à inteligência artificial: a compreensão de que a adoção efetiva dessas tecnologias depende não apenas do acesso às ferramentas, mas da criação de uma cultura de experimentação, colaboração e aprendizagem contínua.
A inteligência artificial é, por natureza, interdisciplinar. Por isso, temos buscado fortalecer conexões com outras unidades da UFRGS para ampliar perspectivas e promover abordagens complementares sobre os desafios contemporâneos da tecnologia.
Nesse contexto, uma ação conjunta realizada com o Instituto de Física e o Instituto de Matemática reuniu especialistas e membros da comunidade acadêmica para discutir aplicações, fundamentos e impactos da IA em diferentes áreas do conhecimento.
A iniciativa reforça a compreensão de que os avanços mais significativos frequentemente surgem da interação entre diferentes campos científicos, e com isso visamos contribuir com a formação de profissionais capazes de compreender problemas complexos e desenvolver soluções inovadoras para desafios científicos e sociais.
Um dos movimentos mais recentes do trabalho do INF frente à IA foi a realização de oficinas de formação em inteligência artificial generativa voltadas à comunidade acadêmica. A segunda edição do curso “IA Generativa para Educadores” ampliou a participação de docentes interessados em compreender como as novas ferramentas podem apoiar o planejamento pedagógico, a criação de materiais didáticos, a organização de conteúdos e a análise de informações.
Mais do que apresentar ferramentas, as atividades promoveram reflexões sobre o papel dos educadores em um cenário no qual a IA passa a integrar o cotidiano das salas de aula e dos ambientes de aprendizagem. As discussões evidenciaram que o uso responsável dessas tecnologias exige não apenas domínio técnico, mas também pensamento crítico, ética e compreensão de seus limites e potencialidades.
As ações de capacitação vêm sendo ampliadas e incluem também iniciativas voltadas aos técnicos-administrativos da Universidade, reconhecendo que a IA pode contribuir para otimizar fluxos de trabalho, automatizar tarefas repetitivas e apoiar processos de gestão, liberando tempo para atividades de maior valor estratégico.
Nesse contexto, foi realizado ao longo do semestre o workshop “Uso de IA no Serviço Público”, estruturado em três módulos. O primeiro, “Contextualização e conceitos sobre Inteligência Artificial”, foi ministrado pelos professores Anderson Rocha Tavares e Dennis Giovani Balreira. O segundo módulo, “Principais tecnologias para a utilização da Inteligência Artificial”, foi conduzido pelos professores Dennis Giovani Balreira e Lucas Rafael Costella Pessutto. Já o terceiro módulo, “Resolução de problemas nas organizações públicas com a utilização da Inteligência Artificial”, foi realizado pelas professoras Mariana Recamonde Mendoza, Luciana Regina Bencke, Renata de Matos Galante e Carla Maria Dal Sasso Freitas. A iniciativa buscou capacitar servidores para compreender o potencial da IA na modernização dos serviços públicos e na qualificação dos processos administrativos.
Leia também: Segunda turma do curso “IA Generativa para Educadores” amplia formação em inteligência artificial.
A nossa atuação também tem extrapolado os limites da academia. Professores e pesquisadores do Instituto vêm participando ativamente de fóruns, encontros e eventos que discutem os rumos da inteligência artificial no Brasil.
Entre essas iniciativas está a participação de Luciano Gaspary e Luigi Carraro no Tech Now, evento que reuniu especialistas para debater tendências tecnológicas, inovação e os impactos da IA nos diferentes setores da sociedade. O encontro proporcionou uma oportunidade para compartilhar experiências e discutir como a pesquisa desenvolvida nas universidades pode contribuir para a construção de soluções relevantes para o país.
Da mesma forma, Luciano Gaspary representou o Instituto em atividades promovidas pela Assespro-RS, entidade que congrega empresas e organizações do setor de tecnologia. Os debates abordaram temas como transformação digital, formação de talentos, inovação e os desafios da adoção crescente de sistemas baseados em inteligência artificial.
Esses momentos de troca são fundamentais para aproximar universidade, setor produtivo e sociedade, permitindo que diferentes perspectivas contribuam para uma compreensão mais ampla das oportunidades e responsabilidades associadas à IA.
Além das iniciativas de formação e dos espaços de debate, temos contribuído para o avanço do conhecimento em inteligência artificial por meio de pesquisas que abordam alguns dos principais desafios contemporâneos da área.
Para o professor Luigi Carro, um dos temas centrais da atualidade envolve a busca por modelos de IA mais eficientes do ponto de vista energético e computacional.
“Nos últimos anos estudamos o impacto dos grandes modelos de linguagem na programação e percebemos que, embora eles ofereçam capacidades impressionantes, seu custo de execução pode se tornar um fator limitante. Por isso, temos investigado alternativas capazes de reduzir o consumo de energia e tornar essas tecnologias mais acessíveis, explorando desde arquiteturas de modelos menores até novas abordagens para execução eficiente em diferentes plataformas computacionais”, explica.
As pesquisas que realizou resultaram em estudos sobre o uso de modelos compactos em substituição a arquiteturas maiores, avaliações de eficiência energética em GPUs e investigações sobre os impactos da IA na engenharia de software. Mais recentemente, os trabalhos avançaram para a área de AIoT (Artificial Intelligence of Things), que combina inteligência artificial e Internet das Coisas para viabilizar aplicações inteligentes em dispositivos conectados.
Outro tema que tem mobilizado pesquisadores do Instituto é a capacidade de planejamento dos grandes modelos de linguagem. O professor André Grahl destaca que o futuro da IA depende não apenas de sua habilidade para responder perguntas, mas também de sua capacidade de raciocinar sobre objetivos e construir estratégias para alcançá-los.
“Muitas aplicações importantes exigem planejamento. Em nossas pesquisas, mostramos que os modelos mais avançados já conseguem competir com sistemas especializados desenvolvidos ao longo de décadas. Mais recentemente, buscamos compreender como essas capacidades emergem e encontramos evidências de que os modelos podem aprender com seus próprios sucessos, reutilizando soluções corretas para continuar evoluindo”, afirma.
Os resultados dessas pesquisas tiveram repercussão internacional, incluindo destaque no Stanford AI Index Report 2026, uma das principais referências globais para análise do estado da inteligência artificial.
As duas linhas de investigação ilustram um aspecto fundamental da nossa atuação: compreender a inteligência artificial para além de suas aplicações imediatas. Enquanto uma frente busca tornar os sistemas mais sustentáveis e eficientes, outra procura desvendar os mecanismos que permitem o surgimento de capacidades avançadas de raciocínio e planejamento. Em conjunto, esses esforços contribuem para o desenvolvimento de tecnologias mais robustas, acessíveis e alinhadas às demandas da sociedade.
O crescente interesse da comunidade pelas oficinas e debates realizados no Instituto evidenciou uma demanda por oportunidades de formação mais aprofundadas na área. Como resultado desse movimento, em breve um Curso de Especialização em Inteligência Artificial Avançada será lançado.
A iniciativa surge como um desdobramento natural das ações de capacitação já realizadas e busca oferecer uma formação sólida para profissionais que desejam aprofundar seus conhecimentos em temas contemporâneos da área.
Mais do que acompanhar tendências, a proposta é desenvolver competências para compreender, projetar e aplicar soluções baseadas em inteligência artificial em diferentes contextos, contribuindo para a formação de profissionais preparados para atuar em um cenário tecnológico em constante transformação.
A nova especialização reforça o nosso compromisso histórico com a excelência acadêmica, a inovação e a formação de recursos humanos qualificados, ampliando as oportunidades para que a comunidade participe ativamente da construção do futuro da inteligência artificial.
Saiba mais sobre o curso em: https://www.inf.ufrgs.br/especializacao-ia-avancada/
Mais do que acompanhar uma revolução tecnológica, temos buscado contribuir ativamente para sua construção. Ao promover espaços de formação, estimular a experimentação responsável, fortalecer o diálogo com diferentes áreas do conhecimento e desenvolver pesquisas de fronteira, reafirmamos o nosso compromisso com uma inteligência artificial crítica, ética e socialmente relevante. Em um cenário de rápidas transformações, acreditamos que mais do que acompanhar as mudanças, compreender, questionar e desenvolver essas tecnologias é fundamental para formarmos profissionais, pesquisadores e cidadãos capazes de participar das decisões que irão moldar o futuro.